O episódio protagonizado pelas chuvas, em especial na cidade de São Paulo, revela-nos o quanto as cidades se tornaram impermeáveis, ou seja, que as águas perderam a possibilidade de penetrar o solo e alcançar os lençóis próprios para o escoamento e a renovação do ciclo. Desde criança aprendemos que as águas vivem este ciclo, o qual parece mesmo ter sido de alguma forma desestabilizado. No tornar as cidades permeáveis e de alguma forma, drenáveis, pode estar a solução de grande parte da demanda por segurança neste sentido. No entanto, minha abordagem é leiga e não técnica, desta forma posso apenas conjecturar numa lógica limitada.
Por outro lado, o excesso permeabilização pode também resultar em desastres, como se deu nos morros das cidades cariocas. O alto índice pluviométrico causou o encharcar das encostas, as quais, agora acrescidas de peso extra por causa das residências ali estabelecidas, cederam de forma impiedosa e indiscriminada. Neste caso, o clássico exemplo das construções estabelecidas sob risco previamente calculado, ou casas estabelecidas em terrenos potencialmente perigosos.
Nos dois casos, pessoas são afetadas, mortas, dizimadas, sonhos e conquistas desfeitos, traumas e processos de insegurança estabelecidos. Não fosse a grande empatia dos que se comprometem em favor dos que sofrem os reveses da vida, tornando-se estes verdadeiros agentes de Deus em meio à dor e ao sofrimento do próximo, por meio de doações ou presença consoladora, os danos sociais seriam ainda maiores.
Na verdade, escrevo este texto para ressaltar a premente necessidade de revermos o plano piloto das cidades diante de índices de precipitação pluviométrica cada vez mais acrescida em seus volumes. Mas escrevo também por processos tão intensos e semelhantes que atingem as famílias sem que a menor gota de água se configure problemática.
Em primeiro lugar penso na impermeabilidade dos corações. Corações endurecidos, empedernecidos, solidificados, cauterizados. Gente que inviabilizou a possibilidade se tornar maleável diante dos relacionamentos. Endurecidos em relação a Deus, em relação ao próximo, em relação aos sentimentos dos seus filhos e cônjuges, em relação a tudo o que diz respeito a ouvir outros. Gente endurecida que ao receber as águas das tempestades existenciais, inviabiliza toda e qualquer possibilidade de escoamento ou escape, tendo em vista estar isolados e ilhados em seu próprio e pequeno mundo interpessoal. Neste ínterim, as enchentes da vida potencializam gigantesca destruição no caráter, nos sonhos, na conduta, seja através dos vícios, dos desvios de conduta, das debilidades produzidas na alma por meio de processos depressivos e angustiantes. Pessoas que tornam-se intragáveis para si e para os outros.
Em última análise, penso nas construções familiares que se estabelecem em circunstâncias de risco. Jesus, metaforicamente, abordou a questão ao falar de casas construídas sobre a rocha e outras sobre a areia. Pessoas e famílias que estabelecem as suas vidas e casas sobre bases frágeis, na forma de valores e princípios equivocados e anti-bíblicos, contrários ao conselho de Deus, efetivam em princípio e perspectiva a sua própria falência.
Jesus, Seus ensinos, Seus princípios, é a rocha eterna, a Pedra angular. Pessoas, lares e famílias nEle solidificados e consolidados, vencem e superam os reveses da vida, as tempestades, as quais Ele mesmo disse que viriam sobre as casas construídas sobre a areia ou sobre a rocha. Logicamente as casas estabelecidas e consolidadas na rocha são as que prevalecem às intempéries estabelecidas sobre si.
Escrevo este texto por cidades mais permeáveis em suas regiões mais baixas e com menos construções em áreas de risco. O mesmo esperando em relação aos corações, mais permeáveis à voz e aos princípios de Deus e menos propensos a riscos existenciais desnecessários.
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